Priscila Zaia – Psicóloga Supervisora Nacional da Mensa Brasil

O termo “QI” foi, durante muitos anos, a única medida associada ao nível de inteligência de uma pessoa. Ele surgiu no século XX, derivado dos resultados do teste de Binet-Simon, o qual tinha como objetivo assegurar que crianças com baixo nível intelectual não frequentassem a mesma sala de aula de crianças consideradas “normais”. Os resultados desse teste não eram dados por um nível absoluto de inteligência, mas sim pela comparação da idade mental da criança (obtida através da equivalência da idade com as questões de maior dificuldade respondidas corretamente) com sua idade cronológica. Foi com base nesse cálculo que William Stern, em 1911, criou o termo “quociente mental”, que consistia na divisão da idade mental da criança pela idade cronológica, multiplicada por 100. A partir dessa medida, derivou-se o termo QI, tal como é conhecido hoje. Nessa época, a inteligência também era vista como algo fixo e unidimensional, ou seja, o indivíduo nasceria com um certo nível de habilidade intelectual e seguiria até o fim da vida com esse mesmo nível, por isso, esse cálculo de quociente intelectual parecia prover o nível de habilidade das pessoas de maneira confiável.

Porém, com o avanço dos estudos e o desenvolvimento de novas teorias essa visão ficou ultrapassada e, atualmente, sabe-se que diversas são as habilidades que constituem a inteligência, tornando-a multidimensional e maleável. Isto significa que algumas capacidades intelectuais associam-se aos aspectos biológicos dos indivíduos, enquanto outras, relacionam-se aos aspectos ambientais, sendo desenvolvidas ao longo da vida, além de que, os níveis dessas habilidades são diferentes em cada fase de desenvolvimento e de indivíduo para indivíduo.

Acompanhando todos esses avanços teóricos, o termo QI, tal qual era utilizado, passou a não fazer mais sentido. Os testes atuais que medem a inteligência podem diferir na forma como seus resultados serão apresentados. Algumas baterias, compostas por diferentes subtestes, avaliam vários fatores específicos da inteligência e, a partir dos resultados destes subtestes, calcula-se a nota global, ou seja, o QI. Portanto, nos dias de hoje, o QI é caracterizado por uma escala numérica padronizada referente ao resultado de um indivíduo em determinado instrumento psicológico. Nesse sentido, é importante destacar que os resultados dos testes de inteligência podem ser transformados em diferentes medidas para explicar o desempenho do indivíduo, tal como o teste utilizado nos processos de admissão da Mensa, que não fornece seus resultados utilizando a medida do QI, mas sim, o percentil associado ao resultado que o indivíduo obteve, a fim de confirmar o percentil 98 necessário para se tornar membro da associação.

Referências

Primi, R. (2003). Inteligência: Avanços nos Modelos Teóricos e nos Instrumentos de Medida. Avaliação Psicológica, 1, 67-77.

Schneider, W. J., & Newmanb, D. A. (2015). Intelligence is multidimenional: Theoretical review and implications of specific cognitive abilities. Human Resource Management Review, 25, 12-27.

Virgolim, A. M. R. & Konkiewitz, E. C. Altas Habilidades/Superdotação, Inteligência e Criatividade. Campinas: Papirus, 2014.