Sobre Lucas, Corvos e Escrivaninhas

Por Alexey Dodsworth

“Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?” – perguntou o Chapeleiro a Alice, na mesa de chá no País das Maravilhas. Longas discussões se deram, na tentativa de decifrar tal mistério. Enquanto você medita sobre o sentido desta questão, se é que há algum, apresentarei outra pergunta que volta e meia me fazem. Ela é tão enigmática e faz tanto sentido quanto a comparação entre corvos e escrivaninhas:

“Para que serve a Mensa?”

Eu poderia tentar responder de algum modo pautado pela mais severa lógica, mas prefiro contar uma história. A história do nosso Chapeleiro Louco.

Em um dia como outro qualquer, sem nada de especial, o mensan Lucas Stanquevisch, aka Lucas Stank, dirigiu-se a um posto para fazer a segunda via de sua carteira de identidade. No momento de tirar a foto, colocou sobre sua cabeça um chapéu vermelho, estilo turco, e se manteve sentado, bastante sério, diante de um estupefato funcionário.

“Você não pode tirar uma foto pra identidade com este chapéu”, exclamou o atendente.

“É um adereço religioso”, disse Lucas. “A lei me ampara”.

Uma vez que a sequência desta história - conforme contada pelo próprio Lucas - evaporou-se na nuvem de efemeridade característica dos incontáveis posts em grupos do Facebook, me é impossível reproduzi-la detalhe por detalhe. A síntese, contudo, é de amplo conhecimento entre mensans: Lucas seguiu todos os trâmites burocráticos necessários, formalizou sua religião – o Chapelismo – e o resultado de seus esforços não precisa ser descrito. A foto, no presente caso, supera as palavras:

“Já decifrou o enigma?”, indagou o Chapeleiro, voltando-se de novo para Alice.

“Não, desisto!”, Alice respondeu. “Qual é a resposta?”

Alice desiste fácil, mas imagino que você que me lê seja mais persistente e ainda esteja empenhado em identificar qual a semelhança entre corvos e escrivaninhas, assim como para que serve a Mensa. Então ofereço outra história, e lá vamos nós com Lucas Stank para a China. Passeando por orientais longitudes, eis que um dia Lucas se entediou, dirigiu-se ao aeroporto e perguntou: “Para onde vai o próximo voo?”.

Não lembro o nome da cidade, confesso. Mas sei que era algo bem curto, como “Chu”, “Chi”, algo assim. Posso até apostar que o nome, apesar de breve, signifique em chinês algo como “terra dos dragões dourados cujas asas esverdeadas causam tufões por onde passam”. Gosto de pensar assim, mas pouco importa. Importa, no caso, saber que Lucas, movido por uma mescla de curiosidade com senso de aventura, decidiu se lançar rumo ao desconhecido, rumo a um lugar sobre o qual nada sabia. Ir para Chu ou Chi fazia tanto sentido quanto comparar corvos com escrivaninhas, e justamente por isso Lucas entrou no avião. Desembarcou tarde da noite em uma terra de ninguém, sem transporte público funcionando, num lugar onde ninguém falava inglês. Lucas fez isso porque sim, e porque quis.

Ele conseguiu uma carona, mas quase não conseguiu hotel. O lugar era tão pequeno e tão fora de qualquer cenário cosmopolita, que as pessoas olhavam para aquele homem branco e de cabelos claros como se estivessem diante de um alienígena.

“Mas não faz o menor sentido!”, costumam dizer as pessoas quando lhes conto essa história. “O que leva uma pessoa a entrar em um avião e ir para uma cidade qualquer, sem referência alguma?”. Diante de perguntas desse tipo, desesperadas por lógica, eu sorrio, lembro de Lucas, e insisto na pergunta do Chapeleiro Louco: “qual a semelhança entre corvos e escrivaninhas?”.

A esta altura do campeonato, é possível que seu cérebro esteja esquentando e você queira que eu responda o enigma feito a Alice, a moça do País das Maravilhas. Não tão rápido! Vamos ao que outro amigo tem a contar sobre Lucas Stank. Assim nos relata Flávio Paiva, mensan carioca:

“Lucas nunca foi para faculdade. Eu sempre achei isso de uma coragem incrível, (...) algo completamente condizente com ele. Um dia, agora em 2018, ele começa a me contar uma história sobre aulas de eletricidade na Engenharia Elétrica. Nem lembro o motivo da conversa. Eu fiquei pensando ‘Como assim? Ele me enganou o tempo todo dizendo que nunca fez faculdade? Pelo menos um período de engenharia ele fez!’. Admito ter ficado levemente decepcionado... A história foi seguindo, e eu me preparando para reclamar com ele sobre essa enganação. Eis que chegamos ao final:

Professor: ‘Lucas, o que houve? Você não veio na primeira prova, e agora faltou a segunda também. Você sabia tudo da matéria. Discutimos vários detalhes. O que houve?’

Lucas: ‘É que eu não estou matriculado na faculdade. Vim aqui esse semestre só para aprender mesmo’.

Depois disso ele não pôde mais voltar. Foi expulso da faculdade sem nunca ter sido matriculado.”

O nosso Chapeleiro Louco do “mundo real” só fazia o que queria e, quando queria, se dedicava alegremente. Skatista habilidoso, praticante de parkour, construtor de videogames, comerciante de produtos chineses, antes de morrer Lucas estava envolvido em um novo projeto: a criação de uma nova criptomoeda. Seus amigos estavam habituados a terem consigo alguém que era mais que humano: era um evento em si. Como bem define outro amigo, Ivan Bauer Júnior:

“Eu via o Lucas Stanquevisch como um cara - ou melhor, ''o cara'' - que tinha a convicção de que a vida está aí pra ser vivida. Era um gênio, vivia uma vida genial e não tinha como dizer que o irracional era ele. Sua alegria era congruente com seus ideais.”

O fato é que a morte de Lucas nos golpeou com tamanha força, que todos nós entramos em algum grau de negação. Conforme bem descreve Ivan:

“Hoje abri o Facebook e, lendo rapidamente o feed, vejo uns posts que me dão a entender que o Lucas se foi. Reli mais atento, pois eu queria muito acreditar que era só mais alguma brincadeira. Olhei a data no computador, vinte e sete de março, queria ter certeza que hoje não é primeiro de abril. Queria que fosse primeiro de abril.”

Não era.

Eram sete e meia da manhã em Veneza, quando o que parecia um boato virtual de extremo mau gosto caiu no meu colo. “Estamos tentando ligar pro Lucas, mas ninguém atende”, disseram algumas amigas. Decidi ligar. Imediatamente, a mãe de Lucas atendeu ao telefone. Meu estômago gelou ao ouvir o tom de voz de Ju. “Ele faleceu, Alex. Eu encontrei o corpo”. Chorei como uma criança. Eu sentia mais raiva que tristeza. Com tanta gente horrível no mundo, por que alguém tão divertido, bacana e inteligente tinha que morrer? Por que meu melhor amigo da Mensa tinha que morrer?

Bem... Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?

Entrei na Mensa há quase dez anos, por mera curiosidade. Desde que entrei, só tive ganhos: desde prêmios em dinheiro em programas de TV para os quais fui convidado a participar por ser associado, até minha própria vida salva pela intervenção de um amigo médico que conheci. Lucas foi outro dos ganhos que tive, e, sem dúvida, o maior. Fiz muitos amigos na Mensa, mas Lucas era especial. Ele me fazia sentir ternura, coisa bem difícil para minha alma mais inclinada para o áspero e o ácido. Tínhamos longas conversas. Sabendo de minha leve aversão a encontros com muita gente, costumávamos almoçar ou jantar, apenas eu e ele, quando então batíamos papo por horas. Falávamos de tudo e de nada. E, a cada dez minutos, um dos dois literalmente chorava de rir com uma história contada pelo outro.

Confirmado o falecimento de Lucas, joguei tudo para o alto, corri para a internet e providenciei uma passagem que me levasse da Itália ao Brasil a tempo para o enterro. No avião, uma senhora tentou puxar assunto comigo várias vezes, a despeito de meu evidente mau humor. Tentei ser polido, e disse que não tinha condições de conversar, pois um amigo querido tinha morrido, e eu estava indo ao Brasil para seu enterro. Eis que ela arregalou os olhos, e disse: “Queria eu ter alguém que atravessasse o Oceano Atlântico por mim”. Eu explodi numa gargalhada luminosa que chamou a atenção dos demais passageiros. Naquele momento, eu entendi.

“Para que serve a Mensa?”

A resposta é a gargalhada no avião.

Quanto à semelhança entre corvos e escrivaninhas, deixo a resposta do Chapeleiro Louco em “Alice no País das Maravilhas”. Ela também serve para outras questões difíceis, como “qual o sentido da vida?”, “por que tudo existe ao invés de nada?”, “por que Lucas decidiu viajar para Chi/Chu?”, ou “por que nosso amigo teve de morrer tão jovem?”.

“Não tenho a menor ideia!”, disse o Chapeleiro Louco.

Esses Chapeleiros adoram uma treta. Por exemplo: lendo com atenção, descobri que, no País das Maravilhas, o Chapeleiro e o Tempo tiveram uma briga em... março. Isso mesmo, em março, conforme nos informa o livro de Lewis Carroll:

“O Chapeleiro balançou a cabeça negativamente, com tristeza. (...) ‘Eu e o Tempo tivemos uma briga em março passado. (...) E, desde então’ – disse o Chapeleiro em tom melancólico – ‘ele não faz nada que eu peço. É sempre seis horas da tarde!”

* * *

Estamos aqui reunidos em homenagem à memória de Lucas Stanquevisch (1988-2018), o nosso eterno e imensamente amado Chapeleiro Louco. Ele, que não sabia a resposta para a semelhança entre corvos e escrivaninhas, e não estava nem aí pra isso. Ele, que viajava para onde bem entendesse, sem razão para tal. Ele, que brigou com o Tempo em algum momento de março e a tudo paralisou, colocando-nos em torno de uma me(n)sa confusa – embora bem decorada – com convidados pasmos que se entreolham sem acreditar no amargo chá que lhes foi servido. Mas a gente bebe e engole mesmo assim, neste março em que o sol sempre se põe às seis da tarde. A gente bebe e entende e aprende e vive e ama e ri e te celebra, meu amigo.

“Para que serve a Mensa?”

Para ter alguém por quem atravessar oceanos.

E ter alguém que, por ti, os atravesse.

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